este é um texto antigo...
serviu para conclusão num trabalho de filosofia do 11º ano...

Edvard Munch, O grito
Qual é o sentido da vida? Que valor tem a nossa existência humana? Apenas duas perguntas entre inúmeras que a existência do ser humano nos coloca, contudo é com perguntas como estas que elaboramos reflexões e é certo que o sentido da existência é uma questão que se liga ao mais intimo de cada ser humano, pois a situação concreta de cada um de nós homens que existimos aqui e agora é certamente diferente. A nosso ver talvez não seja abusivo e exagerado dizer que em todo o planeta Terra, nenhum outro homem terá uma vivência e um conjunto de experiências iguais que tornem a sua condição humana e o sentido da sua vida perfeitamente iguais. Cada ser humano é um caso especial e concreto, cada ser humano terá a sua própria razão de existir e isso o levará a um intimo sentido que o conduz durante a sua vida.
Ao longo dos tempos o sentido da existência humana e o sentido da vida de cada ser humano tem estado sempre presente desde os primeiros homens ou pensadores pois cada homem é um filósofo que se interroga sobre a sua existência, passando pelos grandes filósofos, por Kierkegaard aquele homem que impulsionou a filosofia existencialista e que é considerado o pai dessa própria corrente filosófica, até aos nossos dias onde tal como no inicio cada homem pensa “o que ando eu aqui a fazer”, contudo agora temos presente a particularidade de estarmos a tentar ser Deus.
Por onde começa esse desejo de ser Deus entre os humanos? Provavelmente nos avanços da tecnologia, criam-se clones fotocópias perfeitas (?) de outros seres, desde a ovelha aos possíveis novos homens colonados. “Mexe-se e remexe-se” as informações genéticas altera-se a ordem da vida? Ou será toda essa ambição em controlar a informação vital da vida apenas o sentido da existência de cada um desses homens que se trancam em laboratórios a manipular as bases azotadas em tubos de ensaio?
No entanto algo presente na essência de todos os homens e que se reflecte nos seus desejos para as suas vidas deve ser algo tão simples como a felicidade. Algo que parece simples de alcançar mas que se torna sempre mais complicado do que o que aparenta ser, mas que deve ser alcançado quando se encontra aquela realização pessoal que tanto ambicionávamos, talvez seja o terceiro estado de Kierkegaard o estado religioso, talvez não, pois nem todos os seres humanos acreditam num Deus, no caso de Kierkegaard o Deus do cristianismo.
O importante porém deve ser lutar por essa felicidade porque se não podemos cair no terrível oposto que é aquele misto de sofrimento, medo e angustia que nos torna infelizes, que nos pode levar à desistência, desistir da nossa busca pelo sentido na existência humana, levando muitos dos homens a por fim à ultima barreira que os separa do fim – a morte. É assim que muitos são levados pelo suicídio, porém existe também quem pense que a vida é um absurdo e não tem qualquer sentido, adoptando posturas pessimistas perante a vida como Satre que defendia um existencialismo ateu, mas estas pessoas não cometem o suicido limitam-se a viver a tal vida que dizem ser absurda e infeliz, elaborando pensamentos pessimistas sobre a existência humana.
Será que essas pessoas sonham? Às vezes parece que o sonho é tudo na vida e não será o sonho o estado que tanto ambicionamos, a derradeira meta da nossa busca pelo verdadeiro sentido da existência humana? O estado religioso ou a simplesmente a ilusão de uma vida absurda?
Um sonho é um sonho, é aquilo que tanto se quer na vida, são os sonhos que nos fazem crescer e elaborar objectivos nas nossas vidas. Um jovem que queira ser enfermeiro elabora escolhas desde o 9º ano segue o seu caminho de acordo com aquele sonho. Um miúdo que queira ser o homem mais rico do mundo começa a juntar dinheiro em função do tal sonho. Alguém que queira abdicar de tudo e seguir a vida religiosa, quem sabe fazer um voto de pobreza, torna-se um frade franciscano.
Cada vez se torna mais evidente que a busca do sentido na existência humana é algo muito pessoal, os homens por enquanto ainda têm vontade pessoal e não são máquinas robotizadas e programadas, cada qual segue os seus sonhos que o levaram à valorização da sua individualidade e a compreender a sua própria existência, e o mais maravilhoso é que essa busca pela felicidade de cada homem demora o tempo que cada um desejar pois à sempre espaço para ir mais além.
... acho que cada vez mais me convenço de uma coisa...
tal como uma antiga orientadora de ensino clínico sempre me disse...
"... existem aqueles que têm o curso de enfermagem.... depois existem alguns que por acaso também são ENFERMEIROS!"
só me interrogo por uma única razão... se não gostam do que fazem... porque é que escolheram este curso... se não gostam de cuidar... porque é que tentam!?
A relação de ajuda em Enfermagem, é a meu ver antes de tudo, uma relação humana, o que consequentemente implica a conjugação de dois seres humanos totalmente diferentes, uma vez que cada pessoa representa um universo inimaginável e irrepetitível que se rege por sentimentos, percepções, pensamentos, emoções e necessidades. Deste modo, facilmente se compreende que o papel do enfermeiro na relação de ajuda com cada uma das pessoas com que se relaciona diariamente, será necessariamente, único uma vez que a própria relação de ajuda, se constrói a partir das necessidades específicas, de um utente específico.
Recordando a história da enfermagem, facilmente entendemos que as primeiras enfermeiras da história humana são as mães, pois são elas as primeiras cuidadoras, as primeiras pessoas a dar afecto, a estabelecer uma relação de mãe-filho com os novos seres, transmitindo com o seu toque, todo o significado do universo humano, a capacidade de oferecer amor, carinho e afecto. Assim tendo a Enfermagem, raízes tão marcantes, a Enfermagem actual, deve decididamente dar cada vez mais ênfase às suas origens, não esquecer o papel preponderante da relação de ajuda junto dos utentes, uma vez que o ser humano, é um ser social e numa situação em que se encontra num ambiente estranho muitas vezes debilitado, sentindo-se carente de afecto ou simplesmente procurando o apoio de um enfermeiro, esta pessoa não pretende a eficácia técnica dos serviços de saúde, esta pessoa espera ser escutada, sentir que lhe prestam a atenção devida, sentir que existe ali uma outra pessoa que a compreende e que lhe presta cuidados de saúde de excelência técnica e humana.
A sensibilidade para a percepção dos sentidos, é uma das características mais importantes que um enfermeiro deve possuir. A capacidade do profissional de enfermagem, para observar e identificar situações, eliminando preconceitos e juízos de valor, é alvo de uma constante evolução ao longo da sua vida, contudo, esta deverá ser uma condição sempre presente no exercício da sua profissão, uma vez que dela em grande parte depende o modo como se relaciona com o outro, o modo como utilizamos o nosso olhar, o nosso toque, como nos movimentamos, como gesticulamos e empregamos as potencialidades mímicas, as distâncias físicas de relação interpessoal, o modo como empregamos o silêncio quando necessário para escutar outra pessoa. A falta de conhecimento das potencialidades da relação de ajuda, e do modo como a desenvolver junto de cada utente, é algo incrivelmente importante, uma vez que poderá ser a razão para impedir ou mesmo distorcer toda a comunicação que é realizada junto de um utente, transformando a relação de ajuda em algo completamente oposto, criando dúvidas nos utentes e sentimentos de desconfiança e conflito.
O enfermeiro no desenvolvimento da relação de ajuda, deve tomar em consideração o tipo de comportamento social que emprega nas suas relações com os utentes, deste modo, a adopção de um comportamento assertivo, facilitará o estabelecimento de uma relação empática com os utentes, potencializando a interacção social, habilitando o enfermeiro a agir de forma tranquila, procurando satisfazer os seus objectivos na relação, sem ansiedades excessivas, expressando os seus sentimentos de forma honesta e adequada, fazendo valer os seus direitos, sem negar os direitos dos outros intervenientes na relação interpessoal. A interacção social desenvolve-se assim tendo como características a inexistência de receios desapropriados, harmonização entre o comportamento verbal e o não verbal, estabelecendo-se um padrão de linguagem fluente e o contacto visual firme, o que inevitavelmente favorece a dinâmica de relacionamento interpessoal, permitindo ao enfermeiro ser verdadeiramente congruente no seu discurso e atitudes.
Na actualidade, o utente cada vez mais sente necessidade de uma relação de ajuda, numa sociedade em que cada vez mais o papel das altas tecnologias, possui maior preponderância, muitos profissionais de saúde centram o seu modo de agir, na qualidade técnica dos seus serviços, esquecendo notoriamente, toda a parte humana dos cuidados de saúde. Assim devem os profissionais de Enfermagem e todos aqueles que ambicionam um dia o ser, não esquecer as raízes da Enfermagem, não esquecer que Enfermagem é a arte de cuidar do ser humano e que este se entende como uma dimensão única, com um legado pessoal inigualável, que o distingue de todas as outras pessoas. Os Enfermeiros do presente e do futuro devem ser deste modo profissionais de alta competência técnica, com elevados conhecimentos científicos e que saibam estabelecer a ponte com a humanização dos seus cuidados, através da potencialização da relação de ajuda em enfermagem.
Por tudo isto, creio que ser Enfermeiro, não se trata de uma escolha profissional, trata-se sim de um estilo de vida, de uma apetência e de um gosto em cuidar de pessoas e promover a sua saúde. Só assim seremos verdadeiros Enfermeiros.
hoje fui ao serviço de apoio a dependentes da instituição onde realizei o ensino clínico de enfermagem de cuidados de saúde ao adulto e idoso...
foi estranho percorrer os dois corredores com 140 camas... fica aquela sensação de que sinto falta de ali estar... porque quem lá está sente falta de toda a turma... e foi com muita alegria e algumas lágrimas que nos acolheram hoje... e a eterna questão... "Senhores Enfermeiros quando é que voltam para cá...?"
tenho saudades...
a propósito deste post do "com pinga de sangue"
A minha experiência, não só como aluno, mas também como dirigente de uma Associação Académica de Estudantes de Enfermagem permite-me uma visão um pouco mais aprofundada de como em tudo na vida, a tendência para as generalizações é devastadora, promiscua e injusta. Quero com isto dizer apenas que existem escolas... e escolas... Alunos e.... alunos...
Se por um lado existem Escolas Superior de Enfermagem do ensino particular bem mais antigas que muitas das ESE’s públicas, existem ESE’s quer particulares quer públicas que ainda possuem planos curriculares desajustados e que não cumprem os objectivos definidos pela Ordem dos Enfermeiros.
Tal afirmação de que os profissionais formados em instituições particulares, possam possuir uma qualidade alvo de discussão, é quanto a mim uma simples barbaridade e de quem não está a par da realidade vivida nas ESE’s... porque falhas na formação existem sim, mas não se limitam ao particular, são uma realidade nas duas vertentes de instituição e não deixam em boas mãos as ESE’s públicas.
Para dar um simples exemplo, actualmente duas das ESE’s mais conceituadas dentro da Ordem, Instituições de Saúde e profissionais que entram em contacto com os formandos destas Instituições, são as históricas ESE’s Lisboetas S. Vicente Paulo e S. Francisco das Misericórdias (ex. Franciscanas Missionárias de Maria, actualmente propriedade da União das Misericórdias Portuguesas), defensoras inequívocas dos princípios de humanização dos cuidados de enfermagem, pelo seu passado e presente ligado aos princípios do Cristianismo.
Se por um lado actualmente existe uma falta de profissionais em enfermagem, daqui a menos de uma época, irá se assistir a um excedente para o número de vagas que os serviços suportam, dado que falta de meios humanos existirá sempre, o que resulta cada vez mais, não na importância da média final de curso, mas sim na Escola Superior de Enfermagem que formou um dado profissional.
Para uma ESE’s, de uma instituição particular sobreviver, apenas pode apostar na qualidade do seu ensino, na excelência dos seus alunos e no reconhecimento no meio.
Dado o Curso de Licenciatura em Enfermagem, ser actualmente um dos Cursos Superiores com maiores custos por aluno, creio que em breve as ESE’s cujos fins sejam lucrativos, terão os seus dias contados, creio até que muitas ESE’s públicas iram fechar portas, permanecendo as Instituições Particulares e Públicas de Qualidade Superior, o que irá permitir um maior apoio aos estudantes do ensino particular, que muitas vezes não entram no ensino público por causa de uma ridícula forma de aferição, que não tem em conta as aptidões do aluno para o curso a que se candidata, o que resulta em alunos de grande média de secundário que na prática, desiludidos por não conseguirem entrar em medicina, recorrem a enfermagem, quando são duas realidades completamente diferentes.
Curioso é ainda referir que assiste-se já a um fenómeno de escolha preferencial pelo particular, mesmo tendo vaga numa ESE’s pública, exactamente pela qualidade superior de ensino em certas Instituições de ensino particular.
Gostava ainda de realizar referência para o facto das escolas acima referidas, possuem um orçamento muito limitado, sem margens de lucro, como muita vez é especulado e ainda que se os alunos do público recebem subsídios de alimentação por parte do estado, durante o ensino clínico, no particular a realidade é bem diferente.
A partir de agora, o meu único concelho para os novos alunos, futuros profissionais é um só... escolham bem a escola que pretendem frequentar, seja ela particular ou pública.
À uns anos atrás, quando estava no meu último ano no ensino secundário, uma apendicite, atirou-me de urgência para o hospital distrital da minha santa terrinha, lembro-me que na altura ainda passei 5 dias internado, o que na altura provocou um impacto decisivo em mim, se até lá estava indeciso sobre o que fazer no final do ano, os dias que lá passei, tudo o que vi, os outros utentes com quem falava todos os dias e sobretudo a equipa de enfermagem fizeram-me ver que era realmente isto que eu queria, que era todo este universo de relação humana que eu pretendia desenvolver não meramente como actividade profissional, mas principalmente como um desígnio humano para uma vida, porque afinal de contas a enfermagem é feita de “pessoas que cuidam outras pessoas”.
Contudo a principal razão pela qual escolhi a enfermagem, deve-se à convivência que tive na minha própria casa durante 5 anos, com a evolução da doença de Alzheimer da minha avó. Sentimo-nos impotentes a cada dia que passa e simplesmente dói, dói imenso, apenas podemos amar e darmo-nos ao máximo, lutar para manter a família unida, porque o choque é intenso e facilmente tudo pode entrar em desequilibro.
Imensas foram as vezes que vi a minha mãe fechada no quarto a chorar, a entrar em histeria porque a sua mãe de hora a hora acordava, ou passava a noite a remexer em papeis na gaveta, ou fugia em camisa de dormir pela porta da rua... quando não era possível suportar mais, apenas restou a solução (maldita) de a institucionalizar num lar de idosos, com as condições que achámos imprescindíveis e todos os dias me lembro de alguém a ir visitar, e por uns meses a minha avó melhorou, cheguei a levá-la de carro a ver o mar por várias vezes... chegámos a pensar voltar a tê-la em casa, até que um AVC, a atirou para o infernal hospital, e por uma semana permaneceu num corredor do hospital, com umas cortinas a improvisar unidades individuais, por uma semana a minha avó esteve inconsciente numa maca, junto de uma porta de serviço, que o pessoal amavelmente utilizava como escape para ir fumar o seu cigarrinho a meio do turno, junto da passagem das macas para os “raios-x”... numa semana a minha avó, que entrara no hospital vítima de AVC, apanhou uma pneumonite e uma infecção urinária, considerada uma vida sem rumo, permaneceu num corredor, sendo dada à família todos os dias a esperança de que “amanhã ela estará numa enfermaria”... já para não falar no nobre incentivo à entrada no hospital, em que uma senhora doutora, teve a nobreza de perguntar à minha mãe: “olhe lá... porque a trouxe para cá?!”... humanismo meus senhores é só o que eu vos peço!!!!!
A minha avó morreu no dia em que soube que entrava no curso de licenciatura em enfermagem, senti uma raiva imensa de toda aquela gente, e prometi que não seria como eles... porque de maus cuidados estamos todos fartos... e é por isso que apelo aos senhores profissionais... nunca deixem de ser humanos, nunca deixem de ser ENFERMEIROS! Porque a enfermagem é para as pessoas...
Esta semana fui dar sangue no banco de sangue de um hospital civil de Lisboa, e tive a oportunidade de assistir a uma cena sem palavras, uma senhora auxiliar de limpeza do serviço, amavelmente, brincando com a enfermeira do serviço, tirou o penso rápido da mão desta e disse “a este rapaz sou eu que ponho o penso”, ao mesmo tempo que largava o saco preto do lixo, pegou no penso e alegremente colocou sobre o “buraquinho da picadinha da veiazinha do bracinho do rapazinho” como ela própria cantarolou...
INFECÇÃO HOSPITALAR diz-vos alguma coisa????
A mim ajudou a levar a minha avó a partir mais cedo deste mundo!