Pode dizer-se que hoje se fala mais de sexualidade do que ontem. E será verdade. Mas talvez se possa dizer, com mais realismo, que se fala mais de sexo e menos de sexualidade, abundantes que são as fontes excessivamente tecnicistas ou higienistas, ousando separar o facto de sermos sexuados de todo o nosso ser, isto é, “vender” sexo sem afectos! O diálogo, porém parece escassear. Ora porque os tabus ainda se mantêm, ora porque os estereótipos são fortes e absorventes, ora porque a comunicação não é fácil, dado que os códigos de linguagem não estão sincronizados e os preconceitos e o moralismo impedem o maior hino à amizade: “tu podes ser o que és diante de mim”.
Às vezes sentimo-nos “entalados” entre dois tipos de discurso, igualmente excessivos e desequilibrados: de um lado os “pseudoprogressistas” que, directa ou indirectamente, acabam por fazer passar um “vale tudo”, que não ajuda, (uma amoralidade dispersiva, não construtiva do indivíduo e da sociedade); do outro lado, pessoas ou instituições que consubstanciam eticamente as suas posições e têm valores coerentes mas que comunicam de forma catastrófica, com estilo moralista e com palavras que “passam ao lado” de quem precisa e as deseja ouvir. O nosso objectivo é falar desses mesmos valores com uma linguagem clara e compreensível, partindo dos sentimentos das pessoas e expondo as nossas próprias fraquezas e sensações, evitando a argumentação paternalista, medrosa ou fugidia.
Jacinta Paiva – João Paiva
Nas Manifestações humanas mais intensas... na dor da morte de alguém por exemplo, sempre nos interrogamos se a dor será física ou mental. Ninguém verdadeiramente sabe: parece mental, mas o corpo sofre inteiramente. No prazer mais intenso... no orgasmo verdadeiro, igualmente nos interrogamos se o prazer será físico ou mental. Ninguém verdadeiramente sabe: parece físico, mas a alma festeja inteiramente.
Num e noutro caso será sempre um todo, um vice-versa, uma identidade. E não saberemos exactamente responder porque tudo o que nos acontece se passa nesse mesmo registo: no registo da impossível separação entre corpo e espírito. O ser humano está psicossomaticamente organizado à partida, absolutamente condicionado por isso, em todos os terrenos do viver e do sentir.
“Identidade” será um sentimento intrincado nessa organização, nessa rede de todas as componentes que a cultura costuma separar. Será uma “identidade corporal”, que se desenrola num corpo sexuado, onde cada facto é um “Facto Psicossomático”, sustentado numa “Psicossomática Estrutural”.
Jaime Milheiro
Direitos do doente
1. O doente tem o direito a ser tratado no respeito e na dignidade humana.
2.O doente tem direito ao respeito pelas suas convicções religiosas, filosóficas e políticas.
3.O doente tem direito a receber cuidados de saúde apropriados ao seu estado de saúde, no âmbito dos cuidados preventivos, curativos, de reabilitação e terminais.
4.O doente tem direito à prestação de cuidados continuados.
5.O doente tem direito a ser informado acerca dos serviços de saúde existentes, suas competências e níveis de cuidados.
6.O doente tem direito a ser informado sobre a sua situação de saúde.
7.O doente tem o direito de obter uma segunda opinião sobre a sua situação de saúde.
8.O doente tem direito a dar ou recusar o seu consentimento, antes de qualquer acto médico ou participação em investigação ou ensaio clínico
9.O doente tem direito à confidencialidade de toda a informação clínica e elementos identificativos que lhe respeitam.
10.O doente tem direito de acesso aos dados registados no seu processo clínico.
11.O doente tem direito à privacidade na prestação de todo e qualquer acto médico.
12.O doente tem direito, por si ou por quem o represente, a acrescentar sugestões ou reclamações.
Deveres do doente
1.O doente tem o dever de zelar pelo seu estado de saúde.
2.O doente tem o dever de fornecer aos profissionais de saúde todas as informações necessárias.
3.O doente tem o dever de respeitar os direitos dos outros doentes.
4.O doente tem o dever de colaborar com os profissionais de saúde.
5.O doente tem o dever de respeitar as regras de funcionamento dos serviços de saúde.
6.O doente tem o dever de utilizar bem os serviços de saúde e de evitar gastos desnecessários.
o seguinte texto relata o Artigo 89º do código deontológico do enfermeiro, excerto de um livrinho de 187 páginas, cuja leitura tanta falta faz a muitos caríssimos colegas por aí espalhados...
in Código Deontológico do Enfermeiro: anotações e comentários, Ordem dos Enfermeiros, 2003, s/ ISBN
O enfermeiro, sendo responsável pela humanização dos cuidados de enfermagem, assume o dever de:
a) dar, quando presta cuidados, atenção à pessoa como uma totalidade única, inserida numa família e numa comunidade;
b) contribuir para criar o ambiente propício ao desenvolvimento das potencialidades da pessoa.
COMENTÁRIO
Humanizar pode ser interpretado como "tomar mais humano", no contexto dos actos profissionais que ligam as pessoas - ao caso, entre enfermeiro e cliente / família. E, aqui, entende-se por família os conviventes significativos, além dos laços de parentesco.
Atender com cortesia e benevolência, acolher com simpatia, compreender e respeitar, promover o estabelecimento de uma relação de ajuda são expressões que se podem derivar da responsabilidade do enfermeiro "pela humanização dos cuidados".
Na alínea a), "dar, quando presta cuidados, atenção à pessoa como uma totalidade única, inserida numa família e numa comunidade", encontramos duas "questões": quando "presta cuidados", dá "atenção à pessoa como.".
Os cuidados, no sentido profissional, são entendidos como "comportamentos cognitivos e culturalmente aprendidos, técnicas, processos ou padrões que capacitam ou ajudam o indivíduo, família ou comunidade a melhorar ou manter uma condição ou estilo de vida saudável".
Retomando a questão da universalidade do cuidar ou do cuidado, já abordado no Artigo 80°, quer seja em relação a uma doença, a uma deficiência ou a uma dificuldade, é necessário precisar a natureza dos problemas encontrados, em termos de funcionalidade e sentido. A saber, funcionalidade, enquanto capacidade de uma pessoa agir por si própria, que se vê em termos do poder parcial ou total de fazer alguma coisa, mas também do saber fazer - por isso falamos do que a pessoa pode fazer sozinha, do que pode fazer com ajuda ou do que já não pode fazer... Mas como a funcionalidade não é tudo, há que ter em conta o sentido, o impacto ou a ressonância que cada pessoa sente numa determinada situação.
E existem limites aos cuidados - porque os cuidados precisam de fazer sentido para quem os presta e para aquele a quem são prestados, e há que orientar o sentido, a razão de ser, a oportunidade desses cuidados. Se quisermos, os cuidados só ganham sentido e têm valor se tiverem em conta a pessoa "como uma totalidade única, inserida numa família e numa comunidade", clarificando o que tem sentido ou contribui para dar sentido à sua vida.
Daqui se clarifica o dever do enfermeiro, expresso na alínea b), de "contribuir para criar o ambiente propício ao desenvolvimento das potencialidades da pessoa".
O centro da acção do enfermeiro é a Pessoa, sendo a relação o seu principal instrumento. Assim, humanizar converge para a qualidade do atendimento global ao cliente / família.
Tendo em conta os Padrões de Qualidade dos Cuidados de Enfermagem (Ordem dos Enfermeiros, 2001), os cuidados de enfermagem tomam por foco de atenção a promoção dos projectos de saúde que cada pessoa vive e persegue. O exercício profissional dos enfermeiros centra-se na relação interpessoal. E cada pessoa é concebida como um ser social e agente intencional de comportamentos, baseados nos valores, crenças e desejos de natureza individual, o que toma a pessoa um ser único, com dignidade própria e com direito a autodeterminar-se. Cada pessoa é um projecto de saúde.
Cada ser humano, pelo facto de ser parte integrante da nossa espécie biológica, possui uma dignidade própria que impede a sua utilização com outra finalidade que não seja a da promoção da respectiva realização pessoal. (51). Deve-se respeitar toda a pessoa pelo "simples" facto de o ser. Mas, mais do que isto, contribuir para criar um ambiente propício ao desenvolvimento das potencialidades.
Em todos os actos, o desempenho dos enfermeiros realiza-se "para" e "pela_' Pessoa - partindo do estar com o cliente / família. Assim, os enfermeiros substituem, ajudam e complementam as competências funcionais das pessoas em situação de dependência, na realização das actividades de vida. Os enfermeiros orientam, supervisionam e, lideram os processos de adaptação individual, o autocuidado, os processos de luto, os processos de aquisição e mudança de comportamentos para a aquisição de estilos de vida saudáveis. Nesta perspectiva, os enfermeiros orientam a sua intervenção mais para a saúde e para "contribuir para criar o ambiente propício ao desenvolvimento das potencialidades da pessoa".
A humanização de qualquer actividade parte de cada pessoa e de cada grupo de pessoas que trabalham em conjunto, tendo presente a regra de ouro, "não faças aos outros o que não queres que te façam a ti". E esta regra só é aplicável na sua forma negativa - atendendo a que o desenvolvimento humano da prestação faz ultrapassar a ideia de "cuido como gostaria de ser cuidado" para a máxima ética "cuido como a pessoa gosta ou quer ser cuidada".
in Código Deontológico do Enfermeiro: anotações e comentários, Ordem dos Enfermeiros, 2003, s/ ISBN